as palavras inundaram sua boca e ele sentiu que seria a última vez: última vez que teria muito a dizer, última vez que teria oportunidade para faze-lo. as pernas tremiam e uma gota de suor frio percorria seu rosto, estudando vagarosamente sua fisionomia, contemplando suas olheiras e imperfeições. será que, enfim, estaria acabando toda essa novela? Aquilo lhe causara interminável sofrimento, mas, de uma maneira ou de outra, estava tudo terminando... e como aquilo o fazia sentir-se vazio! a idéia de retirar um sofrimento, de remover a pedra do sapato (ou a flecha cravada entre as costelas) parece sempre um alívio, mas até que ponto realmente é? ele não conseguia entender: sentia-se masoquista, mas com o que ele ocuparia seu tempo agora, já que não tinha mais motivo, não tinha mais alguém para botar fé? a gota de suor percorrera completamente o lado direito de sua face e, quando finalmente sua boca se abriu, pronta para deixar escapar litros de palavras, ele entendeu. entendeu e, como por milagre, todas as palavras secaram e morreram na sua língua. ele sabia com o que ocupar seu tempo, ele na verdade já vinha ocupando seu tempo com muita coisa desde que todo aquele enredo começara e terminara, só faltava realmente deixar tudo isso ir. não lhe faltava fibra para superar, aliás, há muito já havia superado... faltava-lhe coragem para seguir em frente, pra dar a cara à tapa de novo. todos os seus projetos, seus irmãos, suas paixões: era tanta coisa que ele tinha, e por uma simples e estúpida covardia, continuava preso no passado, como um museu de mau gosto. a boca seca então se fechou e, para a surpresa de todos, abriu-se num sorriso invejável. Sorriso de quem está completamente perdido, e de certa forma, feliz por isso; um sorriso aliviado e amedrontado, mas, ao mesmo tempo, esperançoso pelo que lhe aguardava num futuro próximo, mais próximo do que ele imaginava.
e foi assim que ele presidiu um funeral vestido de branco: funeral da parte ruim de seu passado, enterrando tudo que ameaçasse tirar seu sorriso de novo. para que tal evento acontecesse de novo, precisaria de... não, acho que nunca aconteceria de novo.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)